Lisboa

Lisboa ao entardecer, vista da ponte 25 de Abril. A todos os visitantes que recebíamos em casa o meu pai fazia questão de os levar a ver a vista, para ele a mais deslumbrante da cidade, conduzindo a 10 à hora para desespero dos outros automobilistas, bebendo devagar da paisagem. Eu ia sempre. Dava-se a volta em Almada para a receber de frente, entrando-nos pela alma adentro, alimentando-nos de beleza.

Depois veio a faculdade e a imposição de desenhos de pedaços da cidade a diferentes horas do dia: nascer do sol, meio-dia e pôr-do-sol. Dizia a professora que Lisboa tinha a originalidade de ser camaleónica; de mudar de aspeto a cada hora, com cada direção de luz e linha de sombra. As cores são completamente diferentes e colocam auras felizes, intensas ou mornas sobre as fachadas. Nessas horas passadas sentada no chão à beira dos velhos casarios, das igrejas e dos edifícios modernistas das avenidas, com lápis, tintas e ceras espalhados no passeio e olhares desconfiados de quem navega por essas colinas, intensifiquei o carinho que tenho pela minha cidade.